terça-feira, 26 de outubro de 2010

Matéria da Revista Billboard- We are the world of Bahia
Postado Por: iveteonlineCompartilhe:

Foi incrível, foi um sonho a festa globalizada para gravar o DVD, Multishow Ao Vivo: Ivete Sangalo No Madison Square Garden, e especial do canal pago Multishow (com primeira exibição marcada para 5 de dezembro)... Mas a agenda anda: no mesmo mês em que viveu sua noite de diva pop internacional no Madison Square Garden, em Nova York, a baiana honrou compromissos em Nova Iguaçu (RJ) e em Roma, onde cantou ao vivo e registrou duetos com o italiano Gigi D’Alessio. Gravou ainda um comercial com a apresentadora mirim Maísa e, em 9 de outubro, se não houve imprevistos, deve ter levantado poeira em Teresina, no Piauí Fest Music, antes de dividir palcos com Alejandro Sanz em sua turnê pelo Brasil.


Ah, sim! E para inteirar o DVD, no dia 11 de setembro, Ivete participou de um show da Dave Matthews Band em Dallas, filmando “You And Me” em dueto bilíngue...

Houve quem comparasse a empreitada internacional de agora com a ocasião em que Elymar Santos, então ídolo de churrascarias da zona norte carioca, alugou o Canecão e conseguiu ingressar no outrora glamouroso mundo da indústria fonográfica. Pura crueldade. Musical e artisticamente, os dois pertencem a hemisférios diferentes. No entanto, em comum com o episódio que marcou o show business nacional em 1985, a produção de US$ 5 milhões da baiana em 2010 teve total despudor de oferecer ao público o que ele deseja ver e ouvir – ainda que isso signifique, para muitos, ser kitsch ou pouco sutil. Normal, a maioria dos artistas populares é vista assim mesmo.

O Madison Square Garden é um palco com tradição indiscutível, acostumado a receber U2, Beyoncé, Bon Jovi e outros caixas-altas do cenário pop/rock. Foi nele que John Lennon fez sua última aparição ao vivo, em 1974 – em show de Elton John, junto de Billy Joel, o artista mais associado ao local. Michael Jackson também escreveu páginas de história por lá. Isso sem falar nos eventos esportivos, notadamente lutas de boxe dos anos 70. Mas a realidade é que hoje a autoproclamada “mais famosa arena multiuso do mundo” não é um espaço tão exclusivo: sedia 320 eventos por ano e serve como “casa” para dois times de basquete e um de hóquei.

Isso não diminui o feito de Ivete em 5 de dezembro: reuniu 14,5 mil pessoas, a maior parte delas da cada vez mais numerosa colônia brasileira na região. Gente como a mineira Dalila Schreider, 24 anos, que mora a duas horas de Nova York, em Hartford, Connecticut. "Eu limpo casa. Paga bem, US$ 100 dólares [por faxina], mas neste país a gente acaba gastando muito dinheiro também, né?", refletia. A poucos metros dela, o paulistano Walter Iared, cirurgião-dentista, que, apesar de não ser exatamente fã, curtia bastante o show incluído no pacote turístico que comprara". Do outro lado, animadíssima, a também paulistana Ariela Vasserman, psicóloga, 27 anos (14 deles vividos em Nova York), dançava e driblava o assédio de um colega de trabalho americano que tinha bebido demais: "Muito bem, meu!".



Classes sociais diferentes se misturavam e fizaram trenzinho durante "A Galera", inspiradas pelo chamado gaiato de Ivete: "Vamos ensinar a esse povo o que é uma periguete? Vamos lá!Bota a mão no ombro do colega e me segue!". O apelo foi completado em medley com "Chorando se foi" (a lambada "clássica" de Kaoma) e "Céu Da Boca", com o verso imperativo de duplo sentido nada sutil "chupa toda". A isso somou-se aulinha de pseudo-antropologia aplicada para todos os gringos presentes: "Na tranquilidade, porque somos brasileiros. E brasileiros são todos legais".

O tom foi de ufanismo assumido, desde a letra da primeira canção da noite, "Brasileiro", com seus clichês reprocessados ("Ando de buzu precário, tão pequeno o meu salário/ Na vitrine é tudo caro e assim mesmo quer sorrir"), até o coro espontâneo de milhares de fãs na saída do ginásio: "Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor". Complexo de vira-lata nunca mais! "Eu só quero que vocês tenham orgulho de mim. Eu levo o Brasil para onde for, mas vocês também levam. Vocês, a comunidade brasileira no exterior, são o Brasil no mundo", brandou Ivete.

Essa identificação genuína ficou explícita na hora de cantar um velho e belo hit dos tempos de Banda Eva, "Me Abraça E Me Beija" (composição de Lazzo Matumbi, figura soteropolitana pré-axé, ligada ao reggae). Aí a filha mais ilustre de Juazeiro começou a chorar e interrompeu a música. "Quero que tudo saia lindo e que vocês pensem que valeu a pena vir até aqui me ver." Nessa hora, mais de 14 mil se juntaram no coro: "Ivete!Ivete!Ivete!".

Não deve ter sido fácil para ela. O projeto sofreu desfalques de última hora que pareciam até ebó: o cantor inglês James Morrison soube da morte do pai, alcoólatra, às vésperas de cruzar o Atlântico. A dupla Wisin & Yandel ficou ilhada por causa de uma ameaça de furacão. E a química nos duetos internacionais só rolou mesmo com a neopopozuda Nelly Furtado (que feijão essa mulher está comendo, meu Deus?). Em "Agora Eu Já Sei", o argentino Diego Torres foi apenas correto; e Juanes mesmo fazendo em dois takes, pareceu pouquíssimo à vontade em "Dar-Te". Mereceu a zoada ao vivo da baiana: "Bora Juanes! Força na peruca, meu nego! Um dia você chega lá...".

Mas o santo de Ivete é forte, seu talento brasileiríssimo (olha o clichê aí...) para o improviso também. O show já tinha terminado em explosão de alegria com o medley "Festa"/"Sorte Grande" e "Não Quero Dinheiro (Só Quero Amar)" (com o clássico de Tim Maia sendo a apoteose dentro da apoteose)...E veio a tacada de mestre. "Tenho mais 15 minutos na casa. Vamos fazer um carnaval?", propôs. E toma "Levada Louca", "Toda Boa", "Canibal", "Pererê", "We Are The World Of Carnaval", "Mila", "Prefixo De Verão", "Maimbe/Dandalunda", "Baianidade Nagô"...

Na sala de imprensa, após o show, Jon Pareles, decano da crítica do jornal New York Times, parecia atônito. Tinha de escrever resenha e simplesmente nenhuma dessas composições constava no set list divulgado pela produção, que ainda estava tentando descobrir o que tinha sido tocado. Pareles estava mais impressionado com os 25 minutos finais (esses brasileiros, sempre estourando o tempo.. Foram dez acima dos 15 que sobraram) do que com o show. Tive o prazer de soletrar para ele os nomes de Netinho e Margareth Menezes (os bem-vindos "penetras" que, carismáticos e soltíssimos, incendiaram a parte final da festa), e trocar algumas impressões.



No Brasil, infelizmente, a repercussão de seu texto valorizou a análise sob o ponto de vista do receptor, mais mercadológica: Pareles previa dificuldades de assimilação do trabalho de Ivete nos EUA por causa da barreira da língua e também pela rapidez dos ritmos. A mistura rítmica seria frenética demais para ouvidos estrangeiros. Mas a avaliação artística do jornalista era positiva - ele se espantara por ouvir uma vertente de música brasileira que não suspeitava existir. "Ivete é definitivamene algo a ser visto", cravou.

Como assim?

Humor e nonsense no show histórico

Ivete canta "I'm Easy"

Versão instantaneamente surgida nas arquibancadas: "Estou facinhaaaaaa....aaaah,aaaah"

Madison "Square Garden"

Não, o jogador do Santos não estava em Nova York. Mas buscas do Google o associavam ao show - com ocorrências até no site oficial de Ivete.
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